9. DIRETAS-JÁ

A Incomparável mobilização popular

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil”

As palavras de ordem entoadas no dia 16 de abril de 1984 por 1,7 milhão de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, foi uma explosão de vozes que estiveram caladas por duas décadas. Com a adesão de partidos de oposição, artistas, intelectuais, sindicalistas, estudantes e classe empresarial, a campanha das “Diretas-Já” – pensada e comandada pelo PMDB –, foi a maior manifestação popular vista até aquele momento no país, incomparável do ponto de vista de participação e de entusiasmo do povo brasileiro.

Com urgência para sepultar o regime, a estratégia dos organizadores da campanha foi de não produzir um novo documento propondo eleições diretas, e sim usar o que já se encontrava protocolado na Câmara dos Deputados: o Projeto de Emenda Constitucional nº 5, de autoria do deputado Dante de Oliveira, do Mato Grosso do Sul.

Coordenador-geral do comitê suprapartidário em nível nacional, o ex-senador Pedro Simon relembra a decisão: “queríamos derrubar a ditadura e tínhamos pressa. Não havia espaço para disputa de vaidades para definir quem seria o pai da criança naquela altura do campeonato. E a proposta do deputado Dante, que havia passado despercebida, seria o nosso instrumento de batalha”. 


A Emenda Dante de Oliveira, como ficou conhecida, foi o ponto de partida para a campanha das eleições diretas. O seu autor, junto com outros quatro deputados, entre eles o gaúcho Ibsen Pinheiro, foi convocado pelo então líder do PMDB na Câmara, Freitas Nobre, para integrar a comissão que elaboraria o documento em defesa da tese. Superada essa etapa, foi o momento de colocar a campanha na rua. 


A primeira manifestação pública exigindo o direito de votar para presidente ocorreu no dia 11 de março de 1983 na cidade de Abreu e Lima, em Pernambuco. A experiência serviu para medir a aceitação da proposta. E a repercussão do ato ultrapassou os limites do município e ganhou as páginas dos principais jornais daquele estado. Então, no dia 20 de abril, o PMDB – consciente de que a proposta exigia a união de todos os democratas do país –, procurou os demais partidos da oposição, PDT, PTB e PT, e a sociedade civil, para integrarem à luta. 


A partir deste episódio, o movimento eclodiu e o amarelo, cor símbolo da campanha, repercutiu e tomou grandes proporções. Foram realizados aproximadamente 40 comícios e passeatas de caráter nacional.


O sucesso do movimento pelas eleições diretas se deu pela sede do povo por democracia, mas também pela insatisfação quanto à crise econômica pela qual atravessa o Brasil nos primeiros anos da década de 80. A dívida externa era um grave problema – pois novos empréstimos eram contraídos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) –, e a inflação atingia 239% ao ano em 1983. Neste cenário, e com uma onda gigante de mobilização popular, os militares perdiam o controle da situação. Começava a cair o regime

A campanha em terras gaúchas

Naquela época o jovem deputado federal José Fogaça, aos 36 anos, recebeu a importante missão de Ulysses Guimarães: coordenar a campanha das Diretas-Já no Rio Grande do Sul. Com a contribuição de dirigentes e de militantes do PMDB gaúcho, montou o Comitê Teotônio Vilela. A partir daí, foram realizados incontáveis atos por todo o estado a fim de divulgar o movimento e angariar adesão da população gaúcha.

E a aceitação não tardou. Logo todo o território surgiu “amarelo” e clamando por democracia. Esse foi o clima do primeiro comício no estado, realizado em Cachoeira do Sul no dia 13 de janeiro de 1984. Com a presença de líderes políticos, o ato teve saldo positivo com o povo que saiu às ruas gritando a favor da liberdade. “Naquele momento percebemos que a ideia era incendiar o Brasil”, recorda Fogaça. No mesmo dia, antes de Cachoeira, organizadores do movimento reuniram 5 mil pessoas na Rua dos Andradas, em Porto Alegre.

A cidade de Capão da Canoa sediou outro importante momento dessa história. Cerca de 50 mil pessoas aderiram à caminhada que percorreu ruas e orla de uma das principais praias do Litoral Norte no dia 19 de fevereiro. “Foi espetacular ver as pessoas que estavam ali no seu momento de lazer, abandonar o descanso e ingressar na nossa luta”, lembra Simon.

Já o grande comício de encerramento das Diretas no Rio Grande do Sul, em 13 de abril, reuniu 200 mil pessoas na Praça Montevidéu, na capital gaúcha. A estratégia para chamar a população foi a realização de uma série de “comícios relâmpagos” pelas ruas de Porto Alegre. “Lembro que andávamos de esquina em esquina, munidos de caixote e de megafone”, rememora Fogaça. E arremata: “Foi o momento mais emocionante de toda a minha vida. Arrebatador”. 


A esperança do movimento era de eleger o novo presidente da República até novembro de 1984. Mas chega o fatídico 25 de abril – data em que é votada a Emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional –, e o destino toma outros rumos. 


“No dia da votação organizamos o maior comício em duração, 12 horas no total. Montamos o palco na esquina da Rua dos Andradas com a Borges de Medeiros, naquele episódio batizando o local como Esquina Democrática”, conta Cláudio Cava, então secretário do “Comitê Teotônio Vilela”.

Ele relembra que dali tentavam acompanhar notícias sobre a votação em Brasília, mas não havia comunicação. O que se sabia era que o Congresso havia sido fechado e muitos deputados foram impedidos de votar. “Instalamos um telefone sem fio no escritório do partido e, às 22h, Fogaça falou: perdemos”, recorda Cava, sem conter as lágrimas.

Apesar da esmagadora votação pelo sim – 289 votos favoráveis, 65 contrários e três abstenções –, a Emenda Dante de Oliveira é rejeitada por não atingir o número de votos suficientes. Com o fechamento do Congresso, 112 deputados ficaram de fora da sessão e 22 votos faltaram para a sua aprovação.  

Créditos

Por ordem nesta página:
- Fotos Acervo MDB Memória

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1º Vice-presidente: José Fogaça
2ª Vice-presidente: Patrícia Alba
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Secretário-geral: Giovani Feltes
Secretário-adjunto: Fifo Parenti
1º Tesoureiro: Carlos Búrigo
2ª Tesoureira: Lourdes Sprenger
Sec. Especial MDB Mulher: Cris Lohmann
Líder da Bancada: Edivilson Brum
1º Vogal: Sebastião Melo
2º Vogal: Fábio Branco
3ª Vogal: Paula Facco Librelotto
4º Vogal: Beto Fantinel
1ª Suplente: Fátima Daudt
2º Suplente: Gustavo Stolte
3º Suplente: Paulinho Salerno
4º Suplente: Ricardo Adamy

Textos: Carla Garcia (MTB 12.630) e Juliane Pimentel (MTB 16.656)

Revisão histórica: Evelise Neves

Identidade visual: Agência Comversa

Criação Hotsite: Flame Design

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